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Monday, 18 de January de 2016
Categoria: noticia

No muro da escola
estadual Vicente Rijo fizeram uma espécie de brincadeira (muito séria, diga-se
de passagem): pintaram uma tabela com a frase “antes de morrer, eu quero
_____”, escrita diversas vezes. Com um giz, você pode ir até lá e escrever o
que quiser nos espaços em branco.

Sempre que passo por ali
– além de reparar no que está escrito e pensar nas coisas que quero fazer antes
de morrer – uma coisa me chama a atenção: a maioria das lacunas estão
preenchidas com nomes de outras pessoas. Assim, grande parte do que está
escrito no muro se resume a “Antes de morrer, eu quero Maria / João / Ana /
Gabriel”, etc. Já me peguei pensando que isso não é tão legal quanto parece,
mas desmenti a mim mesma quando percebi que uma coisa não pode ser rechaçada:
precisamos do outro.

Somos seres dependentes
de outros seres. E assim sempre foi, é e sempre será; desde o início, quando
nascemos. Se ninguém ouve o choro do bebê, ele morre. Chegamos até aqui porque
ouviram e identificaram em nosso choro sinais que indicavam fome, sono, sede,
necessidade de carinho, fralda suja.

Não importa se foi bom
ou ruim, muito menos se as pessoas com quem nos relacionamos nos levaram a
expressar a melhor ou a pior parte de nós mesmos. O fato é que são sempre as
pessoas que importam. Sem elas, não existimos. Não dá pra passar pelo mundo sem
se relacionar com, no mínimo, um ser humano. 

Então por que diabos
continuamos a viver como se não precisássemos de alguém? Ou como se os outros
não importassem? Ou como se apenas alguns outros importassem? Por que
continuamos a dar importância para coisas materiais e nos esquecemos dos
vínculos? Talvez porque, de fato, seja mais fácil cuidar de algo material:
quebrou, jogo fora e/ou compro outro.

Por que continuamos a
não cumprimentar o porteiro, o motorista do ônibus, o zelador, o presidente, o
escambau? São pessoas. Precisamos delas. Sem o outro somos um espelho opaco:
não refletimos. Não nos olhamos, não enxergamos o que temos de bom e ruim,
nossas potências e mazelas, nossas belezas e feiúras, nosso quartinho escuro
cheio de mofo e nossa sala de estar.

Sem o outro, eu não
tenho parâmetro para saber como me relaciono. Sem o outro, eu não sei de mim.
Preciso que alguém me olhe de volta e diga “eu entendo”, ou “puxa, hoje você
está com uma cara péssima”. Preciso que alguém esteja com a mão estendida
quando eu precisar. “Preciso que uma outra mão humana segure a minha, no
momento da minha morte”: sábia Lispector.

A frase em questão
escrita no muro da escola pode ser transposta para “Com quem você gasta o seu
tempo?”, ou: “Com quem investe o seu tempo?”. Claro, é maravilhoso poder
investir na bolsa de valores, ter ações, comprar coisas (especialmente pacotes
de viagens). é maravilhoso estar só, tomar um longo banho e andar pelado pela
casa. é magnífico poder cozinhar para si mesmo, curtir a própria companhia. Mas
não temos outra saída: com o outro somos (ainda) melhores: somos potências
expressas, prontas para sair à rua e enfrentar a vastidão perigosa do mundo.
Estamos preparados para o que der e vier. Com o outro, estamos constantemente
sendo convidados a conhecer universos particulares e peculiares, cheios de
signos para decifrar e miudezas para re-descobrir.

Habita em cada um de nós
um universo inteiro, uma população cheia de manias, fobias, anseios, bobagens,
vícios e vontades. Neste sentido, é igualmente maravilhoso ter outro universo
para completar a lacuna da vida. Mas é aterrorizante, sobretudo quando
percebemos que aquele (a) que completa a lacuna também tem a sua própria
lacuna.

Procurar alguém para
dividir – e preencher – nosso espaço não significa não fazer concessões, muito
menos esperar que o outro nos salve da mesmice da vida. Significa conhecer: o
outro e a si mesmo. Saber quando é que o outro deixa escapar o sorriso amarelo,
o que faz às quintas-feiras, se come ou não sobremesa, se gosta ou não da Sofia
Coppola. Ouvir e dizer sim, ouvir e dizer não. E depois, fazer os ajustes
necessários… “você pode às sextas, eu só posso aos domingos”. “Você come
carne vermelha, eu só como frutos do mar”. “Você se dá bem com a família, eu
não vejo meu pai há três anos”. “Gosto de dormir com o abajur, você precisa da
cortina blackout para pegar no sono”. é preciso saber negociar. é preciso abrir
mão de algumas coisas para poder segurar outras.

Com sorte – e com
sentimento – podemos encontrar este universo para se mesclar ao nosso, antes
que sejamos levados desta para uma melhor. Até lá, com quem você quer completar
a(s) sua(s) lacuna(s)?