Menu LondrinaTur, portal de Londrina e norte do Paraná
Guias
Uma piscina chamada desejo Uma piscina chamada desejo

Uma piscina chamada desejo

Tuesday, 13 de October de 2015
Categoria: noticia

Voltamos ao tema do desejo. Em tempos como os de agora, “difíceis para os sonhadores”, é importante falar disso. é importante pensar. é justo com o desejo.

O desejo é justo. Quem comete a injustiça somos nós. A gente finge, dribla, faz que não vê. O desejo, por sua vez, acha tudo isso muito feio, acha uma danada malcriação da nossa parte (tsc, tsc). O desejo não gosta de migalhinha, de metadinha, de pedacinho. O desejo gosta das coisas na medida certa: do prato cheio na medida, a xícara com café quente na medida, o coração aberto para poder receber e também dar. Mas estamos acostumados a dar e nunca receber. Ou a receber e nunca dar. Ou a não saber receber. Ou a não saber dar. Sempre há um problema. Aliás, vários. E um deles reside no fato de acharmos que desejar é sinônimo de bonança: “Estou cheio, sou um ser desejante!”. Pare, você está fazendo isso errado.

Desculpem a chatice e me desculpem os lacanianos, por usar o termo “desejo” de uma forma literária e um pouco chinfrim; mas desejo é sinônimo de falta. De metade-vazio. E não, não significa “se jogar” de cabeça em qualquer piscina que vemos pela frente. Significa, antes, olhar a piscina. olhar o buraco. “Vai dar pé?”, “Preciso de boias?”. Ok, então seguiremos. Uma coisa de cada vez.

Já que fiz uma analogia entre desejo e piscina, irei continuá-la. Pois bem: se o desejo pudesse ser um objeto, e fosse uma piscina, poderíamos dizer que:

1) Tem gente que passa a vida olhando, a uma certa distância. Não molha nem mesmo os pés (sentar na borda, então, nem pensar). São as pessoas que, de vez em quando, são “atingidas” pelos respingos dos mergulhos dos outros, apesar de ser raro perceberem isso; 

2) Tem gente que vai pulando antes de pedir permissão pro dono da casa, sem pensar nas consequências ou num possível afogamento por afobação. Talvez a lógica destes seja a seguinte: “já que está aí e está um lindo dia, por que não?”. Easy, boy.

3) Tem aqueles que empurram os outros na piscina, ignorando as súplicas desesperadas de “por favor, não!” ou “não posso me molhar!”. Quem ainda não conheceu um chato desses, vai conhecer.

4) Tem os que só entram apenas se alguém entrar junto. Quem nunca brincou de “vamos ver quem aguenta mais tempo embaixo d’água sem respirar?” ou “se você pular, eu pulo”? De longe, podem parecer os mais seguros e sensatos. Pra ter certeza, é preciso observar de perto.

5) Tem aqueles que observam por algum tempo. Molham os pés. “A água está muito fria, vou deixar pra mais tarde”. Voltam. Molham os pés novamente. “Acho que agora dá”. Ensaiam. Até que percebem que, para o choque do frio não ser tão grande, será preciso pular de uma vez. Apesar disso, e do risco de pegar uma gripe, eles sabem (mais ou menos) a profundidade da piscina e não pulam dando um salto mortal de cima da árvore mais próxima, mas pulam. Também observam pra não molhar ninguém injustamente, porque, diferente da maior parte dos casos, esses humanos se colocam no lugar do outro. Talvez este “tipo” esteja em extinção.

Se fizermos uma análise combinatória entre os exemplos citados acima, muitos relacionamentos podem acontecer, não importa com qual destes “tipos” você tenha se identificado. Desde que faça questão de sabê-lo. 

Enquanto a gente não sabe do próprio modus operandi, a coisa permanece alheia. Pode pertencer a qualquer um, menos a nós mesmos. Aí a gente vai entrando em piscina que não foi chamado, molha pessoas que não queriam se molhar, ou, o pior: bate a cabeça no fundo porque não calculou a profundidade. Ai. Uma confusão total. Emergência, ambulância, hospital. Cabeça quebrada dá mais trabalho que coração. Cabeça raciocina, coração sente, corpo pulsa e pula. é preciso afinar os três instrumentos para que se possa, então, fazer música. Uma professora, certa vez, disse que “nossa vida afetiva é uma orquestra”. Eu completo: que deveria estar afinada. é preciso concertar.

é preciso conhecer a própria lógica do próprio desejo para averiguar com qual outro modus operandi funcionamos melhor. E, claro, fazer as concessões necessárias.

é preciso manter a piscina do desejo limpa. é imperioso não obrigar ninguém a nadar nela, a não ser por vontade própria. é necessário elaborar o próprio contrato, com cláusulas irrevogáveis e flexíveis. “Por favor, não entre no elevador utilizando roupa de banho”; “O uso da piscina é permitido apenas aos moradores do condomínio”, e assim por diante.

Hoje em dia, desejar não está nada fácil. Cabe a nós trabalhar em tal tarefa para que possamos, cada vez mais e mais verdadeiramente, viver. Afinal, vida é sinônimo de desejo. E enquanto há vida, há esperança de saber cada vez mais: sobre nós mesmos, sobre os outros (que se revelam sempre partes de nós mesmos). Em respeito ao desejo – que, desculpem as feministas radicais, é monogâmico -, eu torço para que eu sempre possa ser fiel a ele. E a mim.