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uma gota do ser humano uma gota do ser humano

uma gota do ser humano

Friday, 15 de May de 2015
Categoria: noticia

a vida é um caos litorâneo. ressaca maligna. um cavar na areia, socar o guarda-sol e esperar que o astro-rei nos enterre, nos consuma, nos dê as rugas necessárias, as cicatrizes em flor, a cor do pecado, o pecado que somos desde a hora de nosso nascimento.

nossos pulmoezinhos abrindo,

como um balão,

um sopro divino da criança ranhenta.

toda encosta é infernal, todo conforto é cego. é o motivo do ser-humano resistente. cabisbaixo e retrógrado.

não me peça para te dar a única coisa que eu posso te vender, este é o lema do artista no século xxi. este é o lema do artista em todos os séculos.

mas quem está aí para sua arte? quem está ai para consumi-la? este é a treta que nos invoca. que nos rega. a meninice que fica nos puxando a barra da saia dentro da mercearia, querendo aquela bala que vira chiclete, querendo aquele sentimento que gruda, que mastigamos.

fazer arte até os punhos sangrarem. até te convencer a compra-la.

(Foto: Lírica Aragão)

estou preso num dilema, num embate macabro comigo mesmo. fiz o lançamento do meu novo romance dias atrás, o “TOWN”. as vendas foram ótimas e a repercussão inevitável. mas o que me aflige é descobrir que aqueles que te batem tapinhas limpos nas costas e dizem “adoro sua arte, vai lá, lança um livro pra gente” são os que mais se ausentaram.

o consumo veio por parte de pessoas, como se diz por aqui, que não são do “rolê”.

toda bituca lançada no chão é uma gota de ser humano. as pessoas cruzam as ruas desesperadas, segurando a vida, segurando a bolsa. celular na cara. carros que cortam as vias como giletes que passa afiada e o sangue brota.

estamos aqui, calvos, lustrosos, cheios de filtros, ensaiando o enterro, prometendo a todos que nos cercam que iremos viver pra sempre.

na biblioteca de londrina há um homem na porta que está lá para autorizar a entrada e saída de pessoas, a entrada e saída de objetos, mas ele não tem autorização para crivar quem entra e sai, o que entra e o que sai.

a biblioteca de londrina tem um manequim na portaria. constatei isto.

o frio está vindo, como um cavalo alado que galopa no ar e o vento gélido se espalha.

amor é apenas o “modo de fazer” na receita do bolo.

até