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Cine Documenta: Documentários de Novos Olhares Cine Documenta: Documentários de Novos Olhares

Cine Documenta: Documentários de Novos Olhares

Monday, 17 de May de 2010
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Dois olhares e um ponto em comum: a visão do jovem realizador sobre os temas documentais. Da contemplação à motivação subjetiva, “Pastoreio”, de Alexandre Garcia, e “Agosto”, de Guilherme Artigas e Marc Jacobs, carregam em si as marcas de um olhar que combina o frescor das novas realizações ao desejo de subversão das formas documentais. 
Antes da experimentação pura e simples, ou da contestação direta e antagônica, a subversão provocada pelos filmes exibidos no 2° encontro do CineDocumenta mostra o resultado de um processo de compreensão de um documentarismo contemporâneo já marcado pela contestação formal e da aproximação das preocupações particulares e subjetivas em relação ao pensamento sobre o fazer documentário. 
Em “Pastoreio”, Alexandre Garcia volta o olhar à cidade de Curitiba em busca de um objeto insólito aos olhos de boa parte de sua própria população. A criação de ovelhas no Parque Barigüi e o inusitado trabalho de manutenção dessa criação no meio do centro urbano é o tema abordado através de uma aproximação igualmente insólita. Garcia recusa o tradicional recurso à entrevista e mesmo à informação documental para entregar-se ao trabalho de contemplação do objeto em suas pequenas tarefas cotidianas. Mas a negação da informação não se transforma em observação pura e simples, marca do cinema direto ou observacional tornado tradicional já nos anos 60: sutilmente, o diretor revela o cuidado estético de cada enquadramento e, em especial, o cuidado semântico que pensa cada movimento e sua duração, cada fala e ruído, como parte da construção de uma observação que é parte objeto visto e parte observador imposto. Sem imprimir necessariamente uma marca subjetiva intensa ao produto final, o realizador não se esconde, ao mesmo tempo, sob o olhar objetivo, mas deixa que objeto e discurso de contaminem: o que é visto e a forma de contar o que é visto se misturam. 
Um processo semelhante de mistura entre o respeito ao objeto e a recusa em se render ao objetivismo pode ser encontrada em “Agosto”, realização de Guilherme Artigas e Marc Jacobs. O histórico confronto entre militares e professores em agosto de 1968 em frente ao Palácio Iguaçu é revisitado sob um viés contemporâneo. Deixando de lado as questões tradicionais sobre fatos, nomes e responsabilidades, os realizadores buscam os personagens envolvidos no confronto na tentativa de refletir sobre o que enxergam como uma simetria de classes peculiar ao confronto. Militares e professores, vistos como classes trabalhadoras em pé de igualdade no que diz respeito às reivindicações e condições de vida, encontram-se em lados opostos no confronto. Como vê hoje esse momento o personagem que estampa as fotos históricas dos jornais da época? Como perceber a sua participação na história de forma pessoal e particular? Preocupações pessoais semelhantes e mesmo laços de família unem professores e militares entrevistados. Na condução da forma do filme, os realizadores evitam a recontação da história, negando-se a mais uma investigação informacional e envolvendo-se na visada subjetiva da história. Aqui, a forma tradicional do documentarismo apoiado em entrevistas e imagens de arquivo se vê transoformada pela carga subjetiva dada pelas escolhas de direção: pequenos e grandes personagens olham para suas imagens não como personagens históricos, mas, assim como ocorre aos próprios realizadores de documentários, como indivíduos carreagados de motivos pessoais e visões particulares sobre suas participações na grande história. 
Com um pé na tradição documental e outro nas preocupações do cinema contemporâneo, o conhecimento histórico formado e a leveza das novas proposições se encontram no CineDocumenta, em busca de reflexões sobre o cinema documentário que façam uma operação semelhante à realizada pelos dois filmes selecionados: a mescla entre compreensão histórica e desobediência criativa do documentarismo. 
Para saber mais sobre a exibição dos filmes no Cine Documenta em Londrina (clique aqui).
Fonte: SESC Londrina