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Ainda não inventaram aplicativo pra flecha do cupido Ainda não inventaram aplicativo pra flecha do cupido

Ainda não inventaram aplicativo pra flecha do cupido

Monday, 17 de August de 2015
Categoria: noticia

Recentemente eu estava sentada em um bar com uma amiga e, na mesa ao lado, estava sentado um casal. O rapaz chegou primeiro. Esperou um bom tempo. Quando a moça chegou, ele parecia um pouco tímido, ela bem mais. Ela toda produzida, ele nem tanto. ‘Conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer’ e pronto, deu pra ver que estavam se conhecendo pela primeira vez, ao vivo. Foi inevitável não pensar: ‘mais um match do Tinder‘. 

Quando se conhece alguém pelo Tinder (ou qualquer outro aplicativo / site que tenha a finalidade de ‘formar pares’), algo ali está implícito, dizendo que o outro já tem um interesse em mim, e ‘opa!’, isso é recíproco, eu também tenho um interesse. Por isso as pessoas clicam like e, se o outro like também, uma janelinha é aberta. Pronto, o cercado seguro da janela virtual fica posto. Posso pensar, digitar, apagar, me utilizar de emojis, enfim. “Ufa”. Se os dois conversam e decidem se conhecer, chega o momento do encontro. Mesmo com o prévio interesse implícito, os medos continuam sendo básicos: será que vai me achar bonita (o)? Será que vai me achar muito diferente da foto? Será que vai achar a minha voz muito fina? 

Mas, e quando o encontro não pode contar com essa – suposta – segurança básica, de que o outro já tem algum interesse em mim? Aí a coisa volta pro modelo old school, onde todo mundo tem medo do ‘não’. Neste modelo, teremos que ler os sinais que o outro nos envia, segurar a onda das projeções (suposições como ‘ele pediu uma cerveja e me serviu primeiro, significa que eu estou em primeiro lugar, que sou a sua escolhida e consequentemente a mulher de sua vida’ devem ser evitadas) e tomar, provavelmente, um Omeprazol. Afinal, é assim que curamos as ingênuas borboletas no estômago hoje em dia. é assim que curamos o tremor nas pernas causado pelo desconforto de um primeiro encontro: já sabendo que ‘deu match‘. A questão agora é ver se dá match na vida real. O que é bem mais difícil.  Pra isso, é preciso se expor. E se expor é mais do que clicar like depois de ver as cinco melhores fotos que a cidadã ou cidadão escolheu para colocar no seu portfolio.

Uma amiga sempre diz que para a ‘coisa’ (completem como quiser) acontecer, temos que contar com a presença de Eros (vulgo Cupido, considerado pelos gregos o deus do amor). Eros é a atração fatal que nos faz ir ao encontro do outro, ser espontâneo, seduzir. Mas Eros, meu filho, cadê você? Não te vejo desde 1999. Se está no meio de nós, temo que esteja um pouco confuso, perdido entre tantos sinais virtuais, carregados de muita projeção e pouco contato real. Os tempos mudaram, mas ainda precisamos da sua ajuda pra vida e o amor irem pra frente.

Eros talvez ache um pouco triste que uma curtida no facebook tenha se tornado parâmetro de medição de afeto. E eu também. Apesar disso, eu não tenho planos de me tornar uma eremita, aceito e faço uso das redes sociais como bem decido. Mas, ao mesmo tempo em que facilitam encontros, também os tornam difíceis, no sentido de que nos distanciam do contato com esse Eros primordial, essa dúvida em relação ao desejo do outro e esses investimentos típicos que acontecem quando temos interesse em alguém.

Facebook é, também, demanda de amor. A gente posta, compartilha, curte, comenta, cutuca (tomara que não), pra ver se algo começa a fazer sentido aqui dentro. Tanto é que levamos as redes sociais a sério. Deletamos – ao menos virtualmente – aquele (a) que nos fez mal, ou, em casos mais sensíveis, aquele (a) que visualizou em março a mensagem que você enviou, chegou dezembro e o/a bendito (a) ainda não respondeu. Paramos de seguir – pelo menos no instagram – os ex-namorados mal terminados; começamos a “seguir” a paixão platônica.

Isso sem citar o famosíssimo “visualizado e não respondido” ou o “nunca visualizado” (chove canivete, mas não aparecem os dois malditos tracinhos). O que seria pior? Ser visto e ignorado ou nunca ser visto? Dá pra escrever uma dissertação sobre o “nunca visualizado” como forma de gentileza ou, melhor dizendo, uma maneira virtual de não se utilizar da indiferença para dizer que não estamos interessados.   

é claro que queremos receber algo, ser recompensados e reconhecidos, de alguma forma. E é bom que exista alguém que vá “curtir” por nós, porque isso significa que alguém está lá para nos enxergar, para nos encontrar no meio da multidão. Mas este não é o ponto.

A questão é a falta de Eros, de amor, no mundo atual, em que o virtual tem ganhado do real.

Seria o facebook mais um instrumento a favor da nossa neurose? ‘Há duas semanas ele não curte nenhum status meu. Será que deixou de me amar?’; ‘Nunca mais comentou nas minhas postagens, estou desinteressante?’. ó céus.

Pode ser. Pode ser que não, e pode ser que tudo isso seja paranoia nossa. Minha, sua, de todos nós. Até os mais céticos diriam.

As paqueras se tornaram virtuais, pelos mais diversos motivos. O mundo mudou, a internet é nosso sobrenome. As paqueras virtuais não se limitam apenas aos tímidos, aos introvertidos ou àqueles que se expressam melhor escrevendo do que falando. Hoje, o contato, muitas vezes, se inicia no facebook. Se antes estávamos acostumados a ouvir ‘nos conhecemos na festa da fulana, fomos apresentados pelo ciclano e começamos a ficar’, agora ouvimos ‘Ela me adicionou e começou a seguir no insta, curtiu uma infinidade de coisas e um belo dia abriu um inbox: ‘puxa, você também gosta de ir a tal lugar? Vi que curtiu.’”

Mero pretexto. Funcional, claro.

Mas, fora as artimanhas virtuais de que dispomos, como ‘adicionar’ uma outra pessoa na vida real? Cadê o botão like no outro? 

Não tem. é preciso descobrir. Conhecer. Se fazer conhecer, se mostrar para o outro, e na vida real não existem fotos de capa, de perfil, curtidas etc. e tal para nos apresentarmos previamente. Existem os correlativos disso, de maneira simbólica. Não importa, facebook e as demais redes sociais vão sempre nos colocar em contato com o outro. Mas é preciso dar mais um passo, pois ainda não inventaram um aplicativo para a flecha do cupido.  

Se arriscar na possibilidade de match na vida real é um ato de coragem. Eros agradece.