Arte além da vida

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

“Ave Maria”


O lendário grupo dinamarquês Odin Teatret apresenta nesta quinta-feira (10) o espetáculo mais aguardado do Festival de Dança de Londrina 2013. “Ave Maria”, montagem solo da atriz Julia Varley com direção de Eugenio Barba, será apresentado às 20 horas no Circo Funcart (Rua Senador Souza Naves, 2380). Os ingressos esgotaram-se uma hora após a abertura da bilheteria na semana passada.

O espetáculo tem como subtítulo a frase “a morte se sente só”. E é justamente a Morte que é chamada à cena para uma espécie de cerimônia em homenagem à atriz chilena María Cánepa, grande amiga do Odin falecida em 2006. Julia Varley deixa que sua imaginação evoque o encontro e a amizade com Cánepa. “Para mim, foi uma emoção essa amizade e também um desafio: como contar uma história de morte?”, confessa Eugênio Barba em entrevista coletiva no Festival de Dança de Londrina.

O Odin conheceu a atriz no ano de 1988, em plena ditadura Pinochet, quando o grupo visitou o Chile e apresentou-se clandestinamente em razão da censura. “O espetáculo aconteceu na igreja e os atores ficavam na casa de diferentes artistas. Julia vivia na casa da María Cánepa, sem dúvida a mais conhecida atriz teatral. Ela já tinha setenta e alguns anos”, relembra o diretor.

Em “Ave Maria”, Mr. Peanut, uma alta e elegante caveira que representa a Morte, assume diversas identidades: o homem de negro, a mulher de vermelho, a esposa de branco. O personagem, uma espécie de alter-ego de Varley, acompanha a atriz há décadas e já participou de vários outros espetáculos históricos do grupo, como “O Castelo de Holstebro” (1990).

A Morte celebra a fantasia criativa e a dedicação de María Cánepa, que soube deixar um rastro de beleza depois de partir. “O espetáculo passa a confrontar o que ocorre quando uma pessoa morre”, explica Varley. Entre fragmentos de dor, lembrança, revolta e afeto, a arte surge como possibilidade de transpor o estado permanente das coisas que passam.

“Talvez a morte não leve tudo embora” – palavras do poeta Antonio Verri que resumem “Ave Maria”. A dramaturgia conta com trechos de Pablo Neruda e Gonzalo Rojas. Ao longo da montagem, os espectadores também poderão ouvir trechos em áudio de Cánepa – a chilena, assim como Julia Varley, era muito conhecida pelo apurado trabalho com a voz.

“O começo do meu trabalho vocal foi uma dificuldade. Apesar disso, durante os espetáculos, eu percebia que as pessoas ficavam tocadas pela voz. A vulnerabilidade da voz é uma das forças que eu tenho. Quando eu escuto a voz de Maria, tenho a sensação de que há uma força que está nas pequenas nuances, modulações, musicalidades. Sinto uma grande afinidade com ela”, relata a atriz do Odin.

A montagem estreou em 2012 e já percorreu países como Argentina, Chile, Itália, Cuba e Uruguai. A presença do Odin Teatret, com sua ideologia e tradição, marca um momento histórico na trajetória do Festival de Dança de Londrina.

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